História da Pousada Convento da Graça:
O Convento de Nossa Senhora da Graça, de Tavira, é um dos edifícios urbanisticamente mais importantes do centro histórico da cidade, pela sua implantação na colina genética, mas também pelo enorme impacto visual na paisagem, destacando-se bem acima da muralha. O edifício religioso veio ocupar uma zona relativamente periférica do primitivo recinto muralhado, onde até ao século XV se localizou a judiaria, precisamente a área oposta à Alcáçova e à principal porta da cidade. Em 1497, no processo de expulsão dos Judeus que levou à fuga de uns e à conversão de outros, D. Manuel ordenou a destruição das sinagogas e sua conversão em igrejas ou em edifícios para outros fins. Daqui resultou a desocupação do espaço onde mais tarde veio a surgir o Convento.
Sensivelmente 45 anos depois da ordem de D. Manuel, reunidas as condições para a fundação de um convento de Eremitas Descalços na cidade de Tavira, foi formalmente fundado o Convento da Graça, por Fr. Pedro de Vila Viçosa, num processo de renovação religiosa levada a cabo por esta Ordem. As obras, todavia, não se iniciaram antes de 1569, dado que os primeiros anos de vida da instituição foram fortemente marcados pela figura de Fr. Valentim da Luz, homem de grande dinamismo intelectual que acabou por ser processado pela inquisição e morto num auto de fé em Lisboa.
Dessa primeira construção, infelizmente, pouco resta, à excepção do claustro, que mantém a estrutura original, de planta quadrangular adossada à fachada Sul da igreja e realizado a partir de uma concepção renascentista algo erudita, pelo cuidado estilístico colocado na feitura de bases, colunas e capitéis toscanos. Também a igreja, edificada segundo princípios chãos, apesar da enorme altura do interior, deve a sua estrutura actual ao primitivo templo da segunda metade do século XVI, embora tenha sido bastante adulterada ao longo dos séculos.
As obras de construção do edifício conventual foram bastante lentas, prolongando-se ao longo de toda a segunda metade de seiscentos. No século seguinte, temos muito poucas notícias acerca da sua história, mas parece certo que o convento entrou precocemente em decadência, uma vez que logo pelos meados do século XVIII é referido em estado ruinoso, muito particularmente o seu claustro.
A campanha barroca do edifício conventual iniciou-se em 1749, precisamente no claustro. Dessa data é um documento onde se refere a compra de novas colunas para os dois ângulos do claustro (SANTANA, 2001). Esta intervenção, contudo, respeitou a anterior traça renascentista do espaço, resumindo-se a copiar o modelo de suporte definido pela construção quinhentista.
Diferente foi o caso das alas conventuais, integralmente remodeladas numa grandiosa campanha realizada entre 1758 e 1778. Da responsabilidade do arquitecto algarvio Diogo Tavares, figura marcante da arquitectura do tempo barroco na província, e de Mestre Bento Correia, esta campanha encarregou-se de actualizar as dependências, destacando-se a escadaria monumental e a porta de acesso à hospedaria, com o seu tímpano interrompido por frontão triangular. A qualidade e amplitude desta obra encontra-se bem patente na grandiosa fachada principal do convento, virada a Sul e organizada simetricamente. Definida a dois registos, possui duas poderosas torres rectangulares nos limites, sendo os panos intermédios compostos por grandes janelões de ampla molduração barroca.
A partir de 1834, com a extinção das Ordens Religiosas, a história do edifício é o reflexo das desastrosas opções de reutilização a que o Estado sujeitou a maioria dos antigos conventos. Em 1839, ficou afecto ao Ministério da Guerra, que aqui instalou sucessivas unidades militares. Na actualidade, com a passagem do conjunto para a ENATUR, que aqui prevê instalar uma Pousada, a degaradação foi controlada e deu-se a possibilidade de intervir arqueologicamente no espaço, processo que permitiu já a identificação de material do séc. VII a.C.
"Em Tavira, um rei depositou a coroa nos telhados e foi-se embora. Do rei nada sabemos, da coroa, conhecemos os sótãos alinhados diante do rio e a forma geométrica da pirâmide. Fechamos os olhos e sabemos que há tesouros piramidais sobre as casas que olham para o Gilão."
Em Pousadas de Portugal - Moradas de Sonho, por Lidia Jorge